sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A dimensão ética da espiritualidade do seguimento de Jesus .I

O trecho de João 1. 35-39 é uma preciosidade quanto ao convite de Jesus e ao seguimento por aqueles que acolhem o convite. É perturbador saber que esta dimensão relacional e de compromisso entre mestre e discípulo, linda, ao mesmo tempo tão divina e tão humana, tenha se distanciado tanto de muitas de nossas relações como Igreja e servos dos dias de hoje. Mas abaixo, uma tentativa de ao menos lançar luz sobre alguns aspectos tão relevantes do que esta passagem vem nos lembrar.

Das muitas questões que saltam aos olhos neste trecho, uma certamente é o caráter da comunhão (que agrega o caráter do relacionamento, da intimidade, do compartilhar), e da responsabilidade a que os discípulos são chamados com o convite de Jesus. A adesão é, e precisa ser, voluntária, mas as responsabilidades que ela abarca são conseqüências impossíveis de serem evitadas. Toda escolha traz uma conseqüência, e os discípulos sabiam disso. “Onde moras”, era o que eles queriam saber, apenas para ir, porque entenderem em Jesus aquele a quem deveriam seguir.

Gustavo Gutiérrez vai chamar a atenção para o fato de que o “seguimento de Jesus não é uma questão individual. Trata-se de uma aventura coletiva. (...) Encontro realizado em comunidade: ‘Encontramos o Messias’. Os primeiros discípulos de Jesus formam, com aqueles que virão, um núcleo modelar para o exercício e o ensino do relacionamento orientado pelo Mestre, e ali as responsabilidades de comunhão e cuidado caminham juntas. Não cuidado individualista, mas partilhado, aprenderão, e ensinarão, uma vida que inclui o outro, o chamado para uma vida aberta ao outro ao ser aberta para Cristo.

Ele acampa entre nós, e, portanto conhece nossa história, conhece nossos desafios, presencia que o rumo de nossa trajetória neste mundo é o medo e o individualismo, a auto preservação, um se fechar em si mesmo, uma competitividade que não se abre a solidariedade, um exercício de uma liberdade perniciosa, que sufoca a liberdade do outro. Os discípulos permanecem com Jesus, e ao longo do caminho, vão aprendendo essa entrega, uma entrega que vai até às últimas conseqüências, com a vida se for possível. Gutiérrez faz questão de lembrar essa entrega (“ninguém me tira a vida, sou eu quem a dá” – Jo.10, 18), desta “livre determinação de entregar sua vida em solidariedade para com os que se encontram sob o jugo da morte”, desta liberdade que é oferecida e razão de existir em função do outro. O chamado de Jesus é entendido pelos discípulos como um chamado a libertação e para uma vida de liberdade, mas esta liberdade não se referencia pela concepção de liberdade que o mundo construiu, mas sim, como Paulo bem aprendeu, e recomendou em Gl. 5, 13-14, uma liberdade que se lança para fora.

É um itinerário que sai em busca e se oferece para ser encontrado. Jesus não parou para convencer André e o outro discípulo, ele passava, e coube a João Batista apontá-lo e indicar aos seus discípulos que eles buscavam o “Cordeiro de Deus”, e eles tinham a oportunidade de segui-lo agora. Na realidade e na história estão este morar, onde a “salvação” quer “permanecer”. Diz Edward Schillebeeckx:

“Salvação-vinda-de-Deus realiza-se em primeiro lugar na realidade mundana da história e não primariamente na consciência dos crentes, que sabem dela. (...) A história dos homens, a vida dos homens em sua relação mútua, é o lugar em que se realiza o processo de salvação ou não-salvação”.

Portanto é importante entender a vocação e o chamado de Jesus não para uma vida contemplativa que implica em desfrutar das “benesses” do Mestre em sua satisfação pessoal-individual, mas sim na construção de uma caminhada comum, que ensina o homem a viver, sobretudo a viver com o outro. Aqui cabe dizer que neste itinerário proposto por Jesus, é espaço confortável para a solidariedade. Os discípulos precisavam entender: seguir Jesus era deixar rastros de solidariedade por onde passavam.

A dimensão ética da espiritualidade do seguimento de Jesus .II

O convite à (re)pensar o lugar da solidariedade no itinerário do mundo social é um convite a estar atento para o distanciamento e o fracionamento das relações e disposição em servir. Os discípulos foram logo avisados que seriam maiores quanto mais servissem, quanto mais “desconfortáveis” na posição de lutarem por eles mesmos, disputando um lugar ao sol com o seu próximo. A solidariedade é artigo raro no mundo atual. Os discípulos de Jesus a alcançaram ao se deixarem “serem afetados”, são alcançados pela afetividade, ao permanecerem com Jesus, que não se omite, se deixa afetar, se envolve, oferecendo a si mesmo como um lugar de descanso.

A ausência da solidariedade levanta questionamentos nos pensadores, observadores do mundo moderno, que reconhecem as lacunas impossíveis de serem preenchidas se não for por ela. Bastaria apenas citar um observador com a nobreza e a repercussão de um Zygmunt Bauman:

“A uma sina comum bastaria a tolerância mútua; o destino comum requer solidariedade. O direito do outro à sua estranheza é a única maneira pela qual meu próprio direito pode expressar-se, estabelecer-se e defender-se. É pelo direito do outro que o meu direito se coloca. ‘Ser responsável pelo Outro’ e ’ser responsável por mim mesmo’ vêm a ser a mesma coisa.”

O filósofo Emmanuel Lévinas tem o mérito de propor o “eu” como uma morada, e aqui nos serve refletir sobre a pergunta dos discípulos sobre a morada de Jesus. Usando a “ótica” de Lévinas, os discípulos perguntam a Jesus: “onde moras”, ao que Jesus responde “vinde e vereis”. Pensando assim, a resposta de Jesus não poderia ser outra. Se o “eu” pode ser entendido como morada, Jesus não “reside” em si mesmo (de si mesmo ele esvaziou-se), o “eu” de Jesus está entregue, aberto para quem quiser vir, alcançar a luz, que é vida, conhecer a verdade que liberta. O “eu” de Jesus se dispõe a servir, a se relacionar e a ensinar como se relaciona, caminha na história humana, nos alcança, Ele passa, e nós devemos segui-lo, para aprender com ele e com ele permanecer.

Lembra Ozanan Carrara que, para Lévinas, “diante da fragilidade do outro, ele é expulso do ser, ele se sente mal em sua pele, e questionado em sua perseverança no ser, é impedido de repousar em si, e constrangido a se desprender de si (...)”. Isso apenas para nos ajudar a entender, sob outra perspectiva, que o seguimento de Jesus requer, necessariamente, que o outro esteja incluído. Ninguém segue ao Mestre objetivando as “benesses” que pode receber e para a sua realização individual. O Messias veio, também, para trazer a sua libertação de nossas “prisões” do mundo egoísta, da caminhada solitária e infeliz.

Todos somos chamados para esta caminhada, para este permanecer, como sendo a maior experiência de espiritualidade e vivência, que podemos alcançar.


“Os guaraos, que habitam os subúrbios do Paraíso Terrestre, chamam o arco-íris de serpente de colares e de mar de cima do céu. O raio é o resplendor da chuva. O amigo, meu outro coração. A alma, o sol do peito. A coruja, o amo da noite escura. Para dizer ‘bengala’, dizem neto contínuo, e para dizer ‘perdôo’, dizem esqueço.”

Extraído do livro Memórias do Fogo vol. 1, Os Nascimentos, de Eduardo Galeano

Os deserdados do êxodo...

“But i still haven’t found

What I’m looking for”

U2

Muito já se tem falado sobre esta nova classe de cristãos protestantes que emerge com cada vez mais força e destaque nas pesquisas sociais quantitativas que têm sido desenvolvidas em território brasileiro, os protestantes, ou evangélicos, não praticantes. Parece que líderes e igrejas se assustam com a possibilidade de crescimento deste grupo que parece querer seguir o seu próprio caminho. Mas parece ser oportuna também a música da banda irlandesa U2, em que Bono Vox canta: “mas eu ainda não encontrei o que estou procurando”. Então, eles partiram rumo ao deserto.

Ao que tudo indica, um número cada vez maior de pessoas não parece sentir-se representado por seus líderes ou as instituições eclesiásticas que haviam escolhido. Partiram então para o seu próprio deserto, e num novo êxodo, procuram seguir e ouvir a voz que clama no deserto, e parece não ser ouvida fora dele. E eles partiram rumo ao deserto. Ao que parece, a força da realidade cotidiana é tão maior quanto o mundo de promessas, de bênçãos prometidas “em nome de Jesus”, das vitórias invencíveis, permanentemente presente na vida dos “verdadeiros” servos, das profecias que proclamam uma vitória individual no plano espiritual, mas não fomentam uma vida de solidariedade e cuidado com o outro no plano da dura realidade da vida. E eles partiram rumo ao deserto.

Ao que parece, estes deserdados não estão muito preocupados com a nova classe sociológica que estão construindo, mas sim com uma convicção, um aprendizado e uma busca. A convicção é a de que eles entenderam que dificilmente sobreviverão sem darem a devida atenção às palavras de Jesus, o Cristo libertador. Entenderam que de fato há uma grande possibilidade de viver mais e melhor e não ser engolido pelas angústias de nossas lutas diárias, se levarmos a sério que devemos chorar com os que choram, ter fome de justiça, sermos misericordiosos e pacificadores, e tudo isso não em congregações somente, mas na dimensão global da vida. O aprendizado é que eles, muitas vezes, não alcançaram isso devidamente entre as quatro paredes que freqüentavam, alguma coisa não batia, alguma referência se perdeu. E a busca é esta que continua, alcançar a voz que clama, ouvir o que ela diz, viver o que ela prega, ir onde ela chama. Então eles partiram rumo ao deserto, e parece que ouvir o que eles têm a dizer poderá ajudar a quem quiser buscá-los, abraçá-los ou segui-los.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Com o Euro manchado e o Orgulho ferido

De maneira cada vez mais veloz a Europa vai se tornando um assombro, fragilizada pela e corroída por uma crise que persiste, sem solução, e sem condições de, ao contrário do que espera seus líderes, permitir a recuperação simultânea de todos os integrantes da zona do Euro, sem prejudicar os que ainda resistem.

Mas enquanto este dilema permanece preenchendo as páginas da imprensa internacional, voltada para o esfacelamento econômico da Grécia e o vexame moral da Itália com a queda de seu "imperador", o cotidiano é cada vez mais árduo e penoso para o cidadão europeu comum. A realidade do desemprego, que avança como uma onda tissunâmica, é agora acompanhada de condição de pobreza e miséria que fere o orgulho europeu, terra do "berm-estar social".


Mais estratégia, menos ética, por favor...


E lá se vai (embora até o momento não concretizado) mais um ministro do governo Dilma, para euforia da oposição e desespero de seus aliados, que vão presenciando a desconstrução sistemática do ciclo de poder original montado por ela.

apego ao poder

O caso do ministro Carlos Lupi repete a lógica de todos os acusados que vieram abaixo até aqui: primeiro, a acusação; segundo, a reação e o discurso contra o "absurdo" da acusação, acompanhado, é claro, da certeza da inocência; terceiro, a repercussão do caso e o desgaste de ter de lidar com ele; quarto, cogita-se a renúncia (ou a queda), que é acompanhada, é claro, da negação indiscutível; por fim, o quinto ponto do processo, a renúncia (ou a queda) torna-se ienevitável.

No entanto, o apego ao poder é, para ministros e deputados, tão forte quanto suas convicções de inocência. Nessas horas, partidos pensam como uma espécie de "indivíduo coletivo", ou seja, se um ministro corre o risco de sair, não importa se há outro com competência e idoneidade mais coerente para ocupar o seu lugar, pois neste momento o ministro "é o partido". O acusado deve ficar, independente do que haja, mas se for inevitável sair, é o partido quem decide quem o substituirá.

estratégia sim, ética não

Portanto, partidos e seus políticos, não pensam eticamente, mas antes, pensam apenas estrategicamente. Vale não dar a oportunidade de que outros ocupem o lugar que é deles "por direito". Como numa espécie de "war da democracia", partidos buscam ocupar territórios que, ao serem conquistados, não devem ser cedidos ou perdidos, mesmo que nitidamente o prejuízo supere qualquer avanço e credibilidade.

ronilso.pacheco

terça-feira, 1 de abril de 2008

O Baque, os Fuzis e os Sonhos


Rumos de um mundo perdido
De onde nossos sonhos acuados, se vão
Soprados pelo vento, violento, com sua força descomunal
Empurrando para o longínquo, nossas esperanças

E o nosso moderno mundo caminha nas trevas
Desesperado, atordoado, desnorteado, cheio de riscos
Em busca de alguma luz, qualquer luz, que faça-nos iluminar
Enquanto olhamos distraídos para o nada

Haja luz! Haja luz!
Sem guerra, sem pressa, sem ansiedade de não morrer
Sem ira, sem fúria, sem dor ou temor
Sem qualquer fuga que nos impeça de viver
E é preciso viver, para experimentar a vida com Deus
E é preciso Deus, para experimentar a vida

Haja luz! Haja luz!
Sem erro, sem peso, sem frustrações por não voar
Sem fardo, sem culpa, sem indiferença ou descrença
Sem a covardia que adia, a capacidade de sonhar
E é preciso sonhar, para alcançar Deus
E é preciso Deus, para alcançar os sonhos

O nosso desespero nos afronta
Enquanto nós seguimos, seguindo, adiante, esta tensa estrada
Que diga-se de passagem, não nos une, antes, muito mais afasta
Nos distanciando da possibilidade de sermos irmãos e irmãs
E de termos uma só caminhada rumo à eternidade

E zomba-se da eternidade como se ela fosse eternamente inalcançável
Como se o finito das quatro paredes do mundo
Fosse de fato a nossa morada em castelo ou masmorra
De onde nem mesmo a mais astuta alegria poderia escapar

Olhemos para o alto! Vejamos o ar!
Com força, com zelo, com disposição para caminhar
Com fé, com certeza, com humildade e convicção
Com a ousadia que cria, a capacidade de se libertar
Porque é preciso a liberdade, para se expressar Deus
E é preciso Deus, para experimentar a liberdade


ronilso pacheco

domingo, 10 de junho de 2007

A Destruição do Passado 2


A ubiqüidade do presente permanente que não se transforma em passado, mas é substituído pelo novo presente gerado, empurra a humanidade para a perda da memória coletiva. Todos os fatos do “ontem” perdem sua conexão com o “hoje”, por mais próximo que eles estejam, pois este vínculo foi rompido. O “ontem” não pode servir para explicar o “hoje”, porque este último está constituído das construções de uma realidade que acaba de nascer, cuja informações e linguagens só se encaixam no “agora”.

No romance de Carlos Fuentes, a personagem Laura Diaz lia muito antropologia e história antiga do México para compreender o presente que fotografava. Na letra de Milton Nascimento e Fernando Brant, se muito vale o já feito / mas vale o que será / e o que foi feito / é preciso conhecer / para melhor prosseguir. Tanto a primeira quanto a segunda citação (em certa medida, até mais a segunda que a primeira), ficaram entrincheiradas na modernidade, pois no momento em que a velocidade destruiu a distância e, conseqüentemente, o vínculo com o passado próximo ou distante, ter referenciais no pretérito se tornou algo como dirimir-se na descontinuidade do “agora”.

Essa descontinuidade também é produto evidente da quantidade de informações. Se a distância já não existe de fato, nada mais separa ou retarda o ir e vir de informações. Este intenso fluxo que percorre o mundo não dá espaço para a reflexão, arremedando a lógica do mercado – também este desprovido dos limites da distância, mas envolvendo uma outra problemática – do mundo contemporâneo. A informação, que é imediata, agora é, consequëntemente descartável, será “destruída” em questão de segundos. O “agora” é a própria informação que se apresenta e evidencia, as referências do agora são as informações, as imagens e as repercussões do atual, do hoje exatamente, e deste modo, é mesmo viável que o “antes” seja empurrado para o esquecimento.

Se esta nova lógica rompe – ou ao menos altera de maneira bastante preocupante – as relações humanas, ou a reduz a muito pouco, se o passado se resume a mera e vaga lembrança do que um dia pode ter sido algo, mas que de qualquer forma não serve para explicar o atual, se a localidade é a periferia dos não-extraterritoriais, então é muito viva a inferência de que Fredric Jameson tenha razão: o pós-modernismo é o que se tem quando o processo de modernização está completo e a natureza se foi para sempre.

Ronilso Pacheco

A Destruição do Passado 1

A popularização da internet obsoletizou, quase que totalmente, as correspondências comuns. Não só. Há um triunfo de um conflito aí. As correspondências respeitavam (estavam evidentemente submissas) as distâncias. Precisavam, como ainda precisam, viajar no tempo e no espaço para alcançar e “aproximar” pessoas. A internet, através do e-mail, não só rompeu este processo, como também pode impor ao homem o “tempo” da máquina. Na verdade, a internet inverteu a lógica do tempo do homem – porque sua massificação a tornou extremamente comum – e jogou a todos dentro de um presente imediato e permanente. Ao que Marc Bloch teria identificado como a categoria da duração, a comunicação pós-moderna impôs a descontinuidade, o que seria um presente que não cessa diante da sucessão de fatos que se apresentam e estão simultâneamente disponíveis, sem que suas relações entre si sejam necessáriamente levadas em conta.

Para Eric Hobsbawm, quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. O que o historiador inglês chama de a destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – irrompe agressivamente à influenciar as relações humanas, os homens com os meios, os meios dentro das estruturas e a interação de tudo isso.

Todos os dias, milhões de pessoas pelo mundo se dirigem para os seus respectivos trabalhos, não antes de adquirirem seus jornais diários, que darão a elas as informações julgadas interessantes sobre suas respectivas localidades, países e o mundo. Mas estas mesmas pessoas não se encontram mais no tempo do “agora” das informações. Uma outra parcela de cidadão do globo estarão, estes sim, no instante da notícia ao acessarem os sites dos mesmos jornais que aqueles. Neste caso, o tempo que separa a compra do jornal e a chegada ao trabalho dos primeiros, é o tempo que os colocarão inevitavelmente no atraso com relação aos segundos. Para os primeiros, o gerador da informação e da notícia – o objeto noticiado – permaneceu estático, enquanto viajava no tempo/espaço para alcançar seus respectivos receptores. Para os segundos, não existindo a distância e o espaço, o gerador da informação e da notícia permanecem vivos, interagem com seus receptores num ir e vir de reações.
Ronils Pacheco

segunda-feira, 21 de maio de 2007

FALSOS HERÓIS (3)

Deus ou os morcegos da caixa de Pandora


Para que ninguém se perca, esclareço rapidamente sobre a lenda de Pandora, da mitologia grega. Uma forma de Zeus impedir que o homem fosse como os deuses, porque Prometeu, havia traído o olimpo, dando ao homem a capacidade de conhecer o fogo, o grande artefato que separava os Deuses dos homens, em conhecimento. Pandora vem a terra para trazer uma armadilha de Zeus, trás uma caixa contendo todas as desgraças possíveis. Pandora encanta Epimeteu, irmão de Prometeu, que recebe a caixa como sendo um presente. Todas aquelas desgraças saltam da caixa. No entanto, havia ali algo que poderia reverter todo aquele quadro, mas Zeus ordena que Pandora feche a caixa, ela o faz rapidamente, sem saber que a única coisa que restou na caixa, foi a solução de grande parte daquelas mazelas, a Esperança.

É talvez a última coisa que tenho a dizer sobre os Heróis, verdadeiros ou falsos, seja lá como cada um pode crer. Porque ninguém é capaz de canalizar, centralizar, representar tanto as esperanças, do que os Heróis. Porque eles sempre aparecem no momento certo, em qualquer lugar, sobre quaisquer circunstâncias. São sempre geniais, salvadores, redentores. Mas o que fazer quando os Heróis são desconstruídos pela força da realidade vigente, quando se tornam, enfim, incapazes de corresponder as esperanças? Mais do que isso, o que fazer quando a esperança parece ter partido, e, se a caixa de Pandora estivesse entre nós, não mais acharíamos o precioso artefato, mas sombras e morcegos que sobrevoam sobre nós, desafiam nossas atitudes, nossa capacidade de reação, nossa disposição de se expor?

Alguém diz no ditado popular que a “esperança é a última que morre”. O que para mim é muito difícil de entender, porque se a esperança é a última a morrer, é apenas uma questão de tempo, porque, ainda que seja a última, ela morrerá. Então ela morre ou não morre? Heróis inspiram esperanças, mas o que fazer quando os heróis finalmente deixam de existir? Sim, “finalmente”, porque enquanto eles permanecem colorindo a nossa cabeça, a gente parece que não cresce para trilhar nossos próprios caminhos mediante a nossa capacidade real. Acho que Heróis são uma praga, e acho que nós não precisamos deles, porque eles não servem para nada além desse mundo seguro da infância. Eles não tem nada a dizer para as dificuldades e desafios do nosso mundo desencantado.

No fundo, os Heróis são tão frágeis como quanto nossa imaginação, eles não respondem nada. Eles ocupam as nossas aspirações, mas eles não podem ser como Deus. Eles canalizam as nossas esperanças, mas eles não são como Deus. Eles desenvolvem grandes poderes (os reais e os imaginários), mas eles não são como Deus. Então eu tenho a impressão que tudo que nos resta, como desde o princípio tem sido, é entender que este mundo desencantado está, dos heróis, das fábulas e dos contos maravilhosos, os morcegos invadiram a caixa de Pandora, mas a esperança está, ainda, refugiada em Deus. E acho até que ela, a esperança, não pode mesmo morrer, a menos que conseguissem matar Aquele que a mantém viva. Heróis são uma praga.

Ronilso Pacheco... enfim...

quinta-feira, 3 de maio de 2007

FALSOS HERÓIS (2)

Entre Deus e os "Apanhadores de Sonhos"


Imagino que seja uma agressão para qualquer criança, ter de aceitar que os heróis são irreais, que eles não nos acompanham na vida, quando esta abandona a fase infantil e avança para a adulta, passando pela adolescência e a juventude. É complexo demais para uma criança entender que vamos envelhecer sem eles, mas é evidente que vamos.

A imagem do herói as vezes é mais forte do que a convicção adulta de que eles simplesmente...passam. E por isso, talvez, ele seja tão naturalmente substituído, “reconstruído” para a linguagem adulta, do homem e seu “salvador”, o libertador da aldeia global, digo, da arena global, dos nossos dias sofridos, das nossas injustiças diárias, das nossas guerras iminentes, dos nossos desafios agigantados, e tudo o mais. Então eles são devidamente encarnados, e as imagens de heróis devidamente projetadas. Heróis que são incapazes de voar, a menos que sejam na força super sônica de seus grandes aviões, intangíveis; que não podem lançar um único raio sequer, mas podem destruir uma cidade com o seu poder de decisão, a sua ordem expressa de que “o inimigo deve ser dizimado” e se entenderem que um governo ou um povo é uma ameaça; que não possuem nenhuma palavra mágica, de encantamento, mas tem as palavras certas para realizarem suas estratégias de “intervenção”, como Restore Democracy, Operação Ajax, Guerra ao Terror, Novo Socialismo, Allied Force, El Dorado Canyon ou Operação Condor; que definitivamente não possuem super força, mas são, indiscutivelmente os homens e mulheres mais poderosos do planeta.

E assim é que, os heróis, estes heróis, permanecem sendo o refúgio de nossas expectativas e esperanças, todas as esperanças dos sonhos que temos, de sobrevivermos todos os dias, sem sabermos por quanto tempo esta terra ainda vai durar. Porque nada mais assustador do que quando heróis lutam entre si, entram em confronto, e os “simples mortais” só podem assistir, e se protegerem da maneira que for possível. Você nunca ficou pensando o que acontecia com a cidade e com as pessoas que acabavam morrendo ou feridas nas batalhas entre heróis e vilões super poderosos? O que acontecia depois que os prédios explodiam, caíam em ruínas, os carros viravam, as pontes rompiam e crateras eram abertas no chão? Provavelmente não, porque o importante ali era o confronto. Mas no nosso mundo real (este mesmo, das nossas injustiças diárias, das nossas guerras iminentes, dos nossos desafios agigantados e tudo o mais), isso faz toda a diferença. Quando nossos “heróis” dialogam, ficamos tensos, o mundo em expectativa. Quando se confrontam, contamos as vítimas, os “simples mortais” que não tiveram escolha, a não ser sofrerem as conseqüências de uma disputa de poder, entre os poderosos. E é assim que eles são os ícones de um estranho messianismo secular. O mundo inteiro, a espera do herói “libertador”.

Como crer num mundo em que falsos heróis conseguem ter um apelo mais forte do que a possibilidade de se voltar para Deus? Em que o “messianismo secular” é mais assimilado do que necessidade de esperar em Deus? E em que Ele, Deus, é acusado de ser mais fantástico, ausente e irreal?

Acho que as respostas partiram junto com a nossa fé.
Ronilso Pacheco... frágil, cristão e desencantado

sábado, 28 de abril de 2007

FALSOS HERÓIS (1)

A quem recorreríamos se Deus simplesmente nos deixasse?

Ilustração de Alex Ross para Liga da Justiça
Esta é uma pergunta tão difícil de formular quanto de de responder. Primeiro porque a proposta que a pergunta faz, ao exigir uma resposta, é absurda. Se Deus é o limite, é o tudo e o todo, se é mesmo por onde todas as coisas vieram a existir, subsistem ou vão acabar, não é muito relevante pensar em quem poderíamos recorrer, porque se ele realmente partisse, nada restaria para se recorrer, a não ser, é claro, uns aos outros, enquanto desse. Segundo, porque minha consciência cristã quase trava toda a minha capacidade de raciocínio, ao pensar na possibilidade de "Deus partir". Deus parte pra onde? Se partisse, onde é que Ele ficaria? Então, pensar na resposta pode ser um desafio menor do que chegar ao ponto de formular esta pergunta.
Também há uma outra questão relevante. Muitas pessoas acreditam que Deus já as deixou. Ele não está mais presente, se é que em algum momento realmente esteve. Nunca recorreram a Deus, segundo elas, porque ele nunca foi "real". Então, não podem pensar na possibilidade de viverem um dia sem a "intervenção" de Deus em alguma situação, simplesmente porque ele nunca esteve, o mundo sempre sguiu sozinho, os homens no comando, ditando as regras, fazendo o jogo, decidindo quem joga e como se deve jogar, incluindo e excluindo quem quiser, enfim, o mundo é o mundo e tudo e todos que ele envolve. Portanto, esta pergunta soa até ridícula, "o que nos restaria?".
Mas contudo, vale a pena o desafio desta especulação. A imaginação da humanidade é recheada de super heróis, eles são o nosso grande subterfúgio, a nossa tergiversação coletiva. Muitas vezes nos acompanham desde a infância, e ainda algumas vezes canalizam as expectativas de um mundo mais seguro. Pois bem, se Deus nos deixasse, super heróis poderiam nos "socorrer". Eles poderiam estar presentes, todos os dias, podiam fazer parte do nosso cotidiano, voando pra lá e pra cá, escalando paredes, saltando de um prédio para o outro, protegendo pessoas inocentes nas guerras urbanas do tráfico, protegendo civis nas guerras militares do oriente médio, salvando vidas nos escombros dos alvos dos ataques terroristas, impedindo mísseis de atingirem escolas, lançando raios nas mãos de um maluco que entrasse armado numa universidade disposto a metralhar todo mundo... os heróis.
Num mundo sem Deus, eles fariam muito sucesso, seriam a grande alternativa, caso chegássemos a conclusão de que não poderíamos fazer nada, seríamos impotentes, como hoje somos, diante das adversidades que se agigantam sobre nós, e nós, com a nossa humanidade, somos absolutamente impotentes. Mas o que dói é que eles não são reais, não se aplicam aqui neste mundo da dura realidade. Então, onde Deus é ausente, faz-se necessários os falsos heróis, diversos, ineficazes, mas aliviadores de consciências temerosas e inseguras num mundo de mar tenebroso. Mas, é bom que se diga, nem os heróis vivem para sempre. Má notícia.
Ronilso Pacheco... cristão, humano e frágil...

terça-feira, 24 de abril de 2007

???...O Deus da Curiosidade...????

“Porque agora vemos por espelho, em enigma, mas então, veremos face a face; agora conheço em parte, mas então, conhecerei como também sou conhecido.” É assim o versículo 12 do capítulo 13 do livro de 1Coríntios. Estamos vendo por espelho, como um enigma, aliás, em se tratando de Deus, como um grande enigma, daqueles que quebram a nossa cabeça, juntando “as peças”.

E é assim que minha cabeça não para de viajar enquanto penso, nesse Deus “lúdico” que fomentou em nós a curiosidade, ou a possibilidade de desenvolvermos por Ele, uma imensa curiosidade de saber cada vez mais.

Lembro-me de quando lia os romances da Agatha Christie, e acompanhava atento, cheio de atenção, cada página das aventuras do Hercule Poirot. Ou, algumas vezes, o Sherlock Holmes de Conan Doyle. Acontece que naquele momento, eu via a trama como um enigma, queria chegar desesperadamente ao fim dos livros, porque queria saber se estava indo bem, se minha intuição estava certa, queria descobrir afinal de contas o que aconteceu. Tudo podia esperar, principalmente o meu dever de casa. Era assim, pois enquanto estava nas primeiras páginas, ou mesmo no meio do livro, eu só conhecia em parte. Então isso me instigava.

Agora me volto para Deus, novamente. Deus que fomentou em nós esta “curiosidade”. Não me preocupa agora saber como curiosidade está descrita no dicionário, eu vou definir isso como “o instinto do querer saber”. Me parece muito bom. Então Deus nos proporcionou o instinto do querer saber, mas acho que nós proporcionamos a nós mesmos a “limitação e a mediocridade do nosso instinto do querer saber”, porque parece que cada vez mais sabemos menos de Deus e mais sobre tudo. Acho que “não soubemos brincar”.

O que queremos conhecer por completo é tudo o que Deus pode fazer, como ele pode fazer, mediante o que ele pode fazer, de que maneira podemos fazer para reduzir o tempo para que ele faça (sim, porque as vezes Ele demoooora), enfim. Queremos desvendar o enigma do “Deus aplicativo” e nos demonstramos desinteressados no conhecimento do “Deus relacional”.

Realmente é uma pena. “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar”. Está aí um bom momento dos filhos terem um momento de lazer, brincando de achar o pai pela casa.

Ronilso Pacheco


OPRESSOCIOECONOMICÍDIO

“Mas os primeiros governates que foram antes de mim, oprimiram o povo, tomaram-lhe pão e vinho. Porém eu assim não fiz, por causa do temor de Deus”
Neemias 5:15


É mesmo um mundo impossível este nosso
Muitas forças permanecem sobre as nossas cabeças
E seremos até o fim, os súditos do castelo
Foi-se o Reich, permanece o totalitarismo
E é mais do que a Hannah Arendt poderia imaginar
A aldeia global agora é uma vila
E a liberdade do indivíduo bruscamente está tolhida
E a opressão cai esmagadora sobre o povo
Que permanece cego na postura cética
De esperar da esfera do poder a redenção social
Messianismo secular, os tolos somos nós

Os súditos do castelo estão lá fora
Nas ruas de La Paz, Quito e Soweto
Nas avenidas de Jacarta, Nova Delhi e Manágua
Nas favelas de São Paulo e Santiago
Mas também em Praga, Ancara e Bucarest
A exploração do homem sobre o homem
Certamente não estava nos planos de Deus
Há milhões nas ruas, há meia dúzia nos palácios
Está entre o equilíbrio e a cólera
A ditadura do pensamento único
E a democracia (mímica) do circo do poder
Messianismo secular, os tolos somos nós

Vem o fim, o fim vem
O mundo está totalmente fora do eixo
E os donos do mundo negam o seu fim
Um país é um negócio, um povo uma mercadoria
É a nova ordem, novo império, novo feudalismo
E a opressão cai esmagadora sobre o povo
O totalitarismo econômico, é mais forte que o bélico
E de punhos cerrados, o povo não clama por Deus
È o messianismo secular, e os tolos somos nós

Ronilso Pacheco

sábado, 14 de abril de 2007

Os Dias como um Martelo...(2): das inerrogações como pedras na estrada

Nunca uma semana impôs tanto sobre mim o desafio tão grande, nem mesmo exigiu de mim uma maturidade tão consolidada. Nunca fui tão tirado, quase que forçosamente, da dimensão limitada da nossa visão natural e obrigado, querendo ou não, a alcançar a dimensão da eternidade, a qual eu realmente pertenço. Nunca me vi tão obrigado a estar pronto para se posicionar, assimilar, e fazer com que minha assimilação ajudasse outros, próximos ou distantes, a discernirem e assimilarem a mesma situação.
Ainda tentando entender e assimilar a perda dos três amigos e irmãos do domingo de páscoa, todos nós tivemos de tomar fôlego e receber a notícia do falecimento do pastor FÁBIO RAMOS DE CARVALHO, nosso amigo, irmão mais velho para alguns, pai para outros, referencial para quase todos, "bispo", "cacatua", figura, etc. Pastor fundador da comunidade cristã Caverna de Adulão, em Belo Horizonte, Fabinho faleceu em Havana, Cuba, vítima de um infarto fulminante, na quinta-feira 12 de Abril.
Mas ao contrário do que possa parecer, não quero "narrar" a vida do Fábio, nem seus feitos (ele não gostaria disso). Mas, se o espaço é pouco, prefiro expor algumas questões que essa perda (?) expõe, e impõe sobre nós (isto sim, pensar, refletir, propor, taí uma coisa que ele gostaria de ver).
Mais uma vez, nos dividimos entre a dor da perda e a alegria de saber para onde ele partiu. Mas afinal de contas, por que estes sentimentos se confundem tanto nessa hora? Por que é preciso um esforço tão grande para entender aquilo que para nós deveria ser tão facilmente compreendido? Por que nossa limitação está tão mais próxima do que insistimos em acreditar que está?
Já ouvi que parte dessa tristeza, além é claro, de saber a falta que nossos irmão farão entre nós, é que nós não fomos feito para a morte... nossa essência é a eternidade. Por isso, a morte nos confronta... seja como for. Cada um de nós gostaria de desfrutar de uma subida com o Senhor, baseada em 1Tessalonicenses 4:16-18. Mas a morte parece a "usurpação" deste "privilégio". Também já me falaram que momentos como este, com esta intensidade, é o único momento em que nós somos "sacudidos" na nossa acomodação nesta terra, na construção de uma vida planejada inconscientemente para ficar aqui. Mas será possível que perderíamos tanto a dimensão das coisas que não se vêem, e são eternas, e nos prendemos nas limitações da realidade naturalmente visível, e são passageiras? Quase todos disseram que Deus está querendo dizer algo... mas o que? O que está sendo dito não está claro, ou a clareza e a simplicidade de como está sendo dito ainda está demasiadamente além do que seria próprio a nossa compreensão?
Nós perdemos um soldado, um dos soldados que estavam a frente, um dos soldados que chegaram a frente de batalha primeiro, antes de muitos de nós. É difícil agora imaginar uma outra forma de tudo isso, ou seja, esse algo que Deus tem a dizer, ser dito de maneira a alcançar tantos irmãos, ministérios, líderes, pessoas que caminham juntas, na visão e nos desafios. Deus não quis dar um toque... quis dar um abalo.
Mas afinal de contas, o que vamos fazer diante de tudo isso? O que todo esse abalo vai gerar em nós, na nossa trajetória restante, no caminho dos caminhantes? Por quanto tempo ainda sentiremos a fissura entre a realidade limitada de um mundo em que não cabemos mais e a realidade infinita de um reino que viemos revelar? Um dia, em um outro texto, espero compartilhar das respostas... no momento... só consigo compartilhar das perguntas. E é assim que cada interrogação que se apresenta, tem a mesma semântica das pedras na estrada, as pedras no caminho dos caminhantes. E, ainda como as pedras, alguns chutam, alguns tropeçam, e alguns simplesmente passam por elas, elas são ultrapassadas, elas ficam para trás.
Sentiremos saudades, eu sinto neste momento. As lágrimas do meu coração ainda não secaram totalmente. Mas eu acredito que posso ser um daqueles que seguirão em frente. Ultrapassarei as "pedras interrogativas", e findarei a fissura.
Obrigado Fábio. Aguarde que chegaremos, pois ainda temos algumas coisas para resolver aqui, cooperando com Deus. E fico feliz, de você ter combatido o bom combate.
Ronilso Pacheco... e o coração ainda chora...

terça-feira, 10 de abril de 2007

Os Dias como um Martelo...

Confesso que não gosto de escrever textos muito longos neste blog. Penso em mim mesmo, quando visito blogs, de amigos ou não, que acho interessantes, mas desisto de chegar até o fim porque os textos são gigantes, e quando tem fundo preto e letra branca então, pior. Mas hoje, sinceramente, não estou preocupado com o tamanho deste texto, até onde ele vai, e o quanto vai ser dito. Quero dizer o que quero dizer, sem medidas.
Tivemos um fim de semana muito, muito difícil. E tivemos, aqui, não diz respeito a mim e minha esposa tão somente, mas uma enorme quantidade de pessoas, irmãos e irmãs, amigos em todas as partes, extensões humanas dessa família de Deus aqui nesta terra. A notícia de um acidente trágico, recebida as 11:00 do domingo por telefone, era só o início de um dia que traria tanta dor, tanta dificuldade de assimilar sentimentos, equilibrá-los entre a tristeza da perda e a alegria de saber para onde (e principalmente para quem) foi a perda.
Num só dia, numa só manhã, perdemos a "tia" Patrícia, seu futuro esposo (acreditávamos que finalmente seria esse) Hebert Cortez, o "Beberico", e o contagiante Jesus, pastor, diga-se de passagem, e dono de um sorriso sem igual. Até o exato momento em que escrevo, o camarada Johab, servo, guerreiro, amor de pessoa e de pai, ainda está em estado grave. Num só dia, numa só manhã. Não imaginava que um único dia podesse ter tanta informação assim. Foi um domingo difícil, um dos mais doloridos da minha vida. Foi uma segunda-feira difícil. Uma das mais difíceis da minha vida. Os dois primeiros dias em que fomos dormir sem a presença de nossos irmãos compartilhadas nessa terra. E a vida segue. E Deus ainda é Deus.
Mas quando penso tudo isso, penso de onde eles vieram. Vieram de um momento e oportunidade de compartilhar da visão e das verdades de Deus. Tocaram, cantaram, semearam. Naquela noite de sexta e de sábado, me conforta o fato de saber que alguém, um que seja, ouviu a palavra do Senhor, recebeu um abraço, um sorriso de um dos quatro, e naquele momento, conheceu Deus. Alguém que não foi alcançado pela idéia, mas pelo amor, o que eles tinha demais. Agora, lembro para onde foram, tiveram o privilégio de ir, antes de nós. Danados, chegaram primeiro, era onde no fundo, todos nós gostaríamos de estar. Então escolho isso, e não deixo esta perspectiva, de onde eles vieram e para onde foram, ser ofuscada por um momento, um quadro, uma circunstância. E se me perguntassem qual o fruto deste acidente, trágico como foi, eu levantaria o dedo, diria "eu sou fruto", pois amadureci uns dez anos a frente, na caminhada com o Senhor. Entendendo o seu amor e propósito.
Então é isso. A vida segue. E Deus ainda é Deus.
Mas não vamos "fechar o mundo em nós". No outro carro envolvido havia uma outra família. Outras perdas, outra história de dor, que não conhecemos a fundo. Então eu os incluo no meu luto, na minha lembrança. Não sei nada deles, nada sobre eles, nome, idade, o que faziam, religião, história de vida, o sorriso, o relacionamento, nada. Portanto, não sei de onde vinham, e logo, não sei para onde foram os que partiram. Então eu os incluo no meu luto. E a vida segue.
E, é bom que se diga, Deus ainda é Deus!
Ronilso Pacheco... e o coração chorando...

vozesdaamérica.vozesdaamérica.vozesdaamérica (2)

A água perfura a pedra,
o vento dispersa a água,
a pedra detém ao vento.
Água, vento, pedra.

O vento esculpe a pedra,
a pedra é taça da água,
a água escapa e é vento.
Pedra, vento, água.

O vento em seus giros canta,
a água ao andar murmura,
a pedra imóvel se cala.
Vento, água, pedra.

Um é outro e é nenhum:
entre seus nomes vazios
passam e se desvanecem.
Água, pedra, vento.

Octávio Paz

domingo, 11 de março de 2007

O Conto de Sara

*Ilustração do livro de Hans Crhistian Andersen

Era a mais perfeita manhã, e era indiscutivelmente a brisa mais suave que Sara havia sentido, porque era um costume seu comparar a brisa que sentia correr hoje, com a que sentira correr ontem. Um hábito bastante incomum, claro, mas era assim que ela se identificava mesmo, incomum.

Ergueu a cabeça, sorriu, abriu os braços, deixou que a imaginação desenhasse uma imagem, uma cena, um lugar. Sabe aquelas cenas em que a personagem para encima de uma montanha, na beirinha, um vento sopra, move seus cabelos, ela abre os braços, sorri, e a câmera dá aquele trezentos e sessenta graus em torno dela, para filmar toda a paisagem? Foi nisso que ela pensou.

Mas o cinema ainda confronta limites que a imaginação pode livremente ultrapassar. Não é uma montanha, é um bosque, e nele não se pisa em gramas, é, com muito cuidado, em girassóis, grandes, gigantescos, como folhas de... alface. Então era isso, um tapete de girassóis. Tantas borboletas, que se fosse noite, a quantidade de estrelas no céu certamente perderiam. O céu, aliás, este era tão azul que parecia ser possível toca-lo, porque imaginava que nada tão azul poderia estar tão distante. Mas estava, é claro, porque afinal de contas céu é céu.

Penso que queria correr, correr, correr... passando pelas árvores. Não digo entre as árvores, estou dizendo passar por elas. É que todas elas eram abertas como um túnel, sim, formavam um túnel literalmente quando estavam sobrepostas uma bem atrás da outra. Penso que por isso Sara não passou.

Mas a voz chamou alto o seu nome. Tudo acaba como um desencanto. Tudo que fora construído com tanto detalhe, acabara como um desencanto. Sara abre seus olhos, apenas por abrir, é claro. Quando o braço de sua companhia cruza com o seu, ela volta a caminhar, e ainda sorri. E eu ficava pensando porque Sara não lamentava a visão que nunca teve, imaginando mesmo que a resposta fosse a oportunidade que perderia de ver como apenas ela, de maneira ricamente particular, poderia ver.

Ronilso Pacheco

O Tombo da Montanha sem Cor

São os rumos que temo
A trajetória estranha da humanidade
No instante em que a terra poderia até parar
Se até ontem não parou
Hoje poderia
Ou amanhã pararia

Toda trajetória é história
E conto com pressa as alternativas que já foram
E calculo com receio as alternativas que restam
Que até ontem restavam
Que hoje ainda resta
Mas amanhã não restaria

Nós seguimos vacilantes
Como um tombo da montanha sem cor
Como as pedras que rolam num eterno avançar
Que até ontem avançava
Que hoje do avanço ainda resta
Mas amanhã pode parar