sábado, 28 de abril de 2007

FALSOS HERÓIS (1)

A quem recorreríamos se Deus simplesmente nos deixasse?

Ilustração de Alex Ross para Liga da Justiça
Esta é uma pergunta tão difícil de formular quanto de de responder. Primeiro porque a proposta que a pergunta faz, ao exigir uma resposta, é absurda. Se Deus é o limite, é o tudo e o todo, se é mesmo por onde todas as coisas vieram a existir, subsistem ou vão acabar, não é muito relevante pensar em quem poderíamos recorrer, porque se ele realmente partisse, nada restaria para se recorrer, a não ser, é claro, uns aos outros, enquanto desse. Segundo, porque minha consciência cristã quase trava toda a minha capacidade de raciocínio, ao pensar na possibilidade de "Deus partir". Deus parte pra onde? Se partisse, onde é que Ele ficaria? Então, pensar na resposta pode ser um desafio menor do que chegar ao ponto de formular esta pergunta.
Também há uma outra questão relevante. Muitas pessoas acreditam que Deus já as deixou. Ele não está mais presente, se é que em algum momento realmente esteve. Nunca recorreram a Deus, segundo elas, porque ele nunca foi "real". Então, não podem pensar na possibilidade de viverem um dia sem a "intervenção" de Deus em alguma situação, simplesmente porque ele nunca esteve, o mundo sempre sguiu sozinho, os homens no comando, ditando as regras, fazendo o jogo, decidindo quem joga e como se deve jogar, incluindo e excluindo quem quiser, enfim, o mundo é o mundo e tudo e todos que ele envolve. Portanto, esta pergunta soa até ridícula, "o que nos restaria?".
Mas contudo, vale a pena o desafio desta especulação. A imaginação da humanidade é recheada de super heróis, eles são o nosso grande subterfúgio, a nossa tergiversação coletiva. Muitas vezes nos acompanham desde a infância, e ainda algumas vezes canalizam as expectativas de um mundo mais seguro. Pois bem, se Deus nos deixasse, super heróis poderiam nos "socorrer". Eles poderiam estar presentes, todos os dias, podiam fazer parte do nosso cotidiano, voando pra lá e pra cá, escalando paredes, saltando de um prédio para o outro, protegendo pessoas inocentes nas guerras urbanas do tráfico, protegendo civis nas guerras militares do oriente médio, salvando vidas nos escombros dos alvos dos ataques terroristas, impedindo mísseis de atingirem escolas, lançando raios nas mãos de um maluco que entrasse armado numa universidade disposto a metralhar todo mundo... os heróis.
Num mundo sem Deus, eles fariam muito sucesso, seriam a grande alternativa, caso chegássemos a conclusão de que não poderíamos fazer nada, seríamos impotentes, como hoje somos, diante das adversidades que se agigantam sobre nós, e nós, com a nossa humanidade, somos absolutamente impotentes. Mas o que dói é que eles não são reais, não se aplicam aqui neste mundo da dura realidade. Então, onde Deus é ausente, faz-se necessários os falsos heróis, diversos, ineficazes, mas aliviadores de consciências temerosas e inseguras num mundo de mar tenebroso. Mas, é bom que se diga, nem os heróis vivem para sempre. Má notícia.
Ronilso Pacheco... cristão, humano e frágil...

terça-feira, 24 de abril de 2007

???...O Deus da Curiosidade...????

“Porque agora vemos por espelho, em enigma, mas então, veremos face a face; agora conheço em parte, mas então, conhecerei como também sou conhecido.” É assim o versículo 12 do capítulo 13 do livro de 1Coríntios. Estamos vendo por espelho, como um enigma, aliás, em se tratando de Deus, como um grande enigma, daqueles que quebram a nossa cabeça, juntando “as peças”.

E é assim que minha cabeça não para de viajar enquanto penso, nesse Deus “lúdico” que fomentou em nós a curiosidade, ou a possibilidade de desenvolvermos por Ele, uma imensa curiosidade de saber cada vez mais.

Lembro-me de quando lia os romances da Agatha Christie, e acompanhava atento, cheio de atenção, cada página das aventuras do Hercule Poirot. Ou, algumas vezes, o Sherlock Holmes de Conan Doyle. Acontece que naquele momento, eu via a trama como um enigma, queria chegar desesperadamente ao fim dos livros, porque queria saber se estava indo bem, se minha intuição estava certa, queria descobrir afinal de contas o que aconteceu. Tudo podia esperar, principalmente o meu dever de casa. Era assim, pois enquanto estava nas primeiras páginas, ou mesmo no meio do livro, eu só conhecia em parte. Então isso me instigava.

Agora me volto para Deus, novamente. Deus que fomentou em nós esta “curiosidade”. Não me preocupa agora saber como curiosidade está descrita no dicionário, eu vou definir isso como “o instinto do querer saber”. Me parece muito bom. Então Deus nos proporcionou o instinto do querer saber, mas acho que nós proporcionamos a nós mesmos a “limitação e a mediocridade do nosso instinto do querer saber”, porque parece que cada vez mais sabemos menos de Deus e mais sobre tudo. Acho que “não soubemos brincar”.

O que queremos conhecer por completo é tudo o que Deus pode fazer, como ele pode fazer, mediante o que ele pode fazer, de que maneira podemos fazer para reduzir o tempo para que ele faça (sim, porque as vezes Ele demoooora), enfim. Queremos desvendar o enigma do “Deus aplicativo” e nos demonstramos desinteressados no conhecimento do “Deus relacional”.

Realmente é uma pena. “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar”. Está aí um bom momento dos filhos terem um momento de lazer, brincando de achar o pai pela casa.

Ronilso Pacheco


OPRESSOCIOECONOMICÍDIO

“Mas os primeiros governates que foram antes de mim, oprimiram o povo, tomaram-lhe pão e vinho. Porém eu assim não fiz, por causa do temor de Deus”
Neemias 5:15


É mesmo um mundo impossível este nosso
Muitas forças permanecem sobre as nossas cabeças
E seremos até o fim, os súditos do castelo
Foi-se o Reich, permanece o totalitarismo
E é mais do que a Hannah Arendt poderia imaginar
A aldeia global agora é uma vila
E a liberdade do indivíduo bruscamente está tolhida
E a opressão cai esmagadora sobre o povo
Que permanece cego na postura cética
De esperar da esfera do poder a redenção social
Messianismo secular, os tolos somos nós

Os súditos do castelo estão lá fora
Nas ruas de La Paz, Quito e Soweto
Nas avenidas de Jacarta, Nova Delhi e Manágua
Nas favelas de São Paulo e Santiago
Mas também em Praga, Ancara e Bucarest
A exploração do homem sobre o homem
Certamente não estava nos planos de Deus
Há milhões nas ruas, há meia dúzia nos palácios
Está entre o equilíbrio e a cólera
A ditadura do pensamento único
E a democracia (mímica) do circo do poder
Messianismo secular, os tolos somos nós

Vem o fim, o fim vem
O mundo está totalmente fora do eixo
E os donos do mundo negam o seu fim
Um país é um negócio, um povo uma mercadoria
É a nova ordem, novo império, novo feudalismo
E a opressão cai esmagadora sobre o povo
O totalitarismo econômico, é mais forte que o bélico
E de punhos cerrados, o povo não clama por Deus
È o messianismo secular, e os tolos somos nós

Ronilso Pacheco

sábado, 14 de abril de 2007

Os Dias como um Martelo...(2): das inerrogações como pedras na estrada

Nunca uma semana impôs tanto sobre mim o desafio tão grande, nem mesmo exigiu de mim uma maturidade tão consolidada. Nunca fui tão tirado, quase que forçosamente, da dimensão limitada da nossa visão natural e obrigado, querendo ou não, a alcançar a dimensão da eternidade, a qual eu realmente pertenço. Nunca me vi tão obrigado a estar pronto para se posicionar, assimilar, e fazer com que minha assimilação ajudasse outros, próximos ou distantes, a discernirem e assimilarem a mesma situação.
Ainda tentando entender e assimilar a perda dos três amigos e irmãos do domingo de páscoa, todos nós tivemos de tomar fôlego e receber a notícia do falecimento do pastor FÁBIO RAMOS DE CARVALHO, nosso amigo, irmão mais velho para alguns, pai para outros, referencial para quase todos, "bispo", "cacatua", figura, etc. Pastor fundador da comunidade cristã Caverna de Adulão, em Belo Horizonte, Fabinho faleceu em Havana, Cuba, vítima de um infarto fulminante, na quinta-feira 12 de Abril.
Mas ao contrário do que possa parecer, não quero "narrar" a vida do Fábio, nem seus feitos (ele não gostaria disso). Mas, se o espaço é pouco, prefiro expor algumas questões que essa perda (?) expõe, e impõe sobre nós (isto sim, pensar, refletir, propor, taí uma coisa que ele gostaria de ver).
Mais uma vez, nos dividimos entre a dor da perda e a alegria de saber para onde ele partiu. Mas afinal de contas, por que estes sentimentos se confundem tanto nessa hora? Por que é preciso um esforço tão grande para entender aquilo que para nós deveria ser tão facilmente compreendido? Por que nossa limitação está tão mais próxima do que insistimos em acreditar que está?
Já ouvi que parte dessa tristeza, além é claro, de saber a falta que nossos irmão farão entre nós, é que nós não fomos feito para a morte... nossa essência é a eternidade. Por isso, a morte nos confronta... seja como for. Cada um de nós gostaria de desfrutar de uma subida com o Senhor, baseada em 1Tessalonicenses 4:16-18. Mas a morte parece a "usurpação" deste "privilégio". Também já me falaram que momentos como este, com esta intensidade, é o único momento em que nós somos "sacudidos" na nossa acomodação nesta terra, na construção de uma vida planejada inconscientemente para ficar aqui. Mas será possível que perderíamos tanto a dimensão das coisas que não se vêem, e são eternas, e nos prendemos nas limitações da realidade naturalmente visível, e são passageiras? Quase todos disseram que Deus está querendo dizer algo... mas o que? O que está sendo dito não está claro, ou a clareza e a simplicidade de como está sendo dito ainda está demasiadamente além do que seria próprio a nossa compreensão?
Nós perdemos um soldado, um dos soldados que estavam a frente, um dos soldados que chegaram a frente de batalha primeiro, antes de muitos de nós. É difícil agora imaginar uma outra forma de tudo isso, ou seja, esse algo que Deus tem a dizer, ser dito de maneira a alcançar tantos irmãos, ministérios, líderes, pessoas que caminham juntas, na visão e nos desafios. Deus não quis dar um toque... quis dar um abalo.
Mas afinal de contas, o que vamos fazer diante de tudo isso? O que todo esse abalo vai gerar em nós, na nossa trajetória restante, no caminho dos caminhantes? Por quanto tempo ainda sentiremos a fissura entre a realidade limitada de um mundo em que não cabemos mais e a realidade infinita de um reino que viemos revelar? Um dia, em um outro texto, espero compartilhar das respostas... no momento... só consigo compartilhar das perguntas. E é assim que cada interrogação que se apresenta, tem a mesma semântica das pedras na estrada, as pedras no caminho dos caminhantes. E, ainda como as pedras, alguns chutam, alguns tropeçam, e alguns simplesmente passam por elas, elas são ultrapassadas, elas ficam para trás.
Sentiremos saudades, eu sinto neste momento. As lágrimas do meu coração ainda não secaram totalmente. Mas eu acredito que posso ser um daqueles que seguirão em frente. Ultrapassarei as "pedras interrogativas", e findarei a fissura.
Obrigado Fábio. Aguarde que chegaremos, pois ainda temos algumas coisas para resolver aqui, cooperando com Deus. E fico feliz, de você ter combatido o bom combate.
Ronilso Pacheco... e o coração ainda chora...

terça-feira, 10 de abril de 2007

Os Dias como um Martelo...

Confesso que não gosto de escrever textos muito longos neste blog. Penso em mim mesmo, quando visito blogs, de amigos ou não, que acho interessantes, mas desisto de chegar até o fim porque os textos são gigantes, e quando tem fundo preto e letra branca então, pior. Mas hoje, sinceramente, não estou preocupado com o tamanho deste texto, até onde ele vai, e o quanto vai ser dito. Quero dizer o que quero dizer, sem medidas.
Tivemos um fim de semana muito, muito difícil. E tivemos, aqui, não diz respeito a mim e minha esposa tão somente, mas uma enorme quantidade de pessoas, irmãos e irmãs, amigos em todas as partes, extensões humanas dessa família de Deus aqui nesta terra. A notícia de um acidente trágico, recebida as 11:00 do domingo por telefone, era só o início de um dia que traria tanta dor, tanta dificuldade de assimilar sentimentos, equilibrá-los entre a tristeza da perda e a alegria de saber para onde (e principalmente para quem) foi a perda.
Num só dia, numa só manhã, perdemos a "tia" Patrícia, seu futuro esposo (acreditávamos que finalmente seria esse) Hebert Cortez, o "Beberico", e o contagiante Jesus, pastor, diga-se de passagem, e dono de um sorriso sem igual. Até o exato momento em que escrevo, o camarada Johab, servo, guerreiro, amor de pessoa e de pai, ainda está em estado grave. Num só dia, numa só manhã. Não imaginava que um único dia podesse ter tanta informação assim. Foi um domingo difícil, um dos mais doloridos da minha vida. Foi uma segunda-feira difícil. Uma das mais difíceis da minha vida. Os dois primeiros dias em que fomos dormir sem a presença de nossos irmãos compartilhadas nessa terra. E a vida segue. E Deus ainda é Deus.
Mas quando penso tudo isso, penso de onde eles vieram. Vieram de um momento e oportunidade de compartilhar da visão e das verdades de Deus. Tocaram, cantaram, semearam. Naquela noite de sexta e de sábado, me conforta o fato de saber que alguém, um que seja, ouviu a palavra do Senhor, recebeu um abraço, um sorriso de um dos quatro, e naquele momento, conheceu Deus. Alguém que não foi alcançado pela idéia, mas pelo amor, o que eles tinha demais. Agora, lembro para onde foram, tiveram o privilégio de ir, antes de nós. Danados, chegaram primeiro, era onde no fundo, todos nós gostaríamos de estar. Então escolho isso, e não deixo esta perspectiva, de onde eles vieram e para onde foram, ser ofuscada por um momento, um quadro, uma circunstância. E se me perguntassem qual o fruto deste acidente, trágico como foi, eu levantaria o dedo, diria "eu sou fruto", pois amadureci uns dez anos a frente, na caminhada com o Senhor. Entendendo o seu amor e propósito.
Então é isso. A vida segue. E Deus ainda é Deus.
Mas não vamos "fechar o mundo em nós". No outro carro envolvido havia uma outra família. Outras perdas, outra história de dor, que não conhecemos a fundo. Então eu os incluo no meu luto, na minha lembrança. Não sei nada deles, nada sobre eles, nome, idade, o que faziam, religião, história de vida, o sorriso, o relacionamento, nada. Portanto, não sei de onde vinham, e logo, não sei para onde foram os que partiram. Então eu os incluo no meu luto. E a vida segue.
E, é bom que se diga, Deus ainda é Deus!
Ronilso Pacheco... e o coração chorando...

vozesdaamérica.vozesdaamérica.vozesdaamérica (2)

A água perfura a pedra,
o vento dispersa a água,
a pedra detém ao vento.
Água, vento, pedra.

O vento esculpe a pedra,
a pedra é taça da água,
a água escapa e é vento.
Pedra, vento, água.

O vento em seus giros canta,
a água ao andar murmura,
a pedra imóvel se cala.
Vento, água, pedra.

Um é outro e é nenhum:
entre seus nomes vazios
passam e se desvanecem.
Água, pedra, vento.

Octávio Paz